Eu sou Laila Mengarda 

Nascida e criança em uma cidade pequena, Timbó, em Santa Catarina. 

Desde cedo, pés descalços, animais, verde, água, liberdade do mesmo tamanho da responsabilidade.

Educada por mulheres fortes, minha nona Almida, com sua polenta, com o queijo que ela mesma curava, os ovos e a galinha caipira no fogão a lenha, tudo, tudinho feito e criado por ela. 

Super poderes. 

Do outro lado, aos finais de semana e férias, minha oma Selmira, e sua tradição alemã, com as sobremesas mais doces do mundo e muita nata com doce de leite. 

Era imaginar algo, desejar em voz alta e tava lá, um pudim quentinho e doce. 

As brincadeiras eram ao ar livre, em contato com animais, com frutas do pé. 

Era um shopping a céu aberto. 

Deve ser por isso que nunca gostei de ambientes fechados. Nem das regras. 

Tinha vaca, galinha, porcos, pássaros, cavalo. 

Peixes em rios doces e lagoas repletas de carpas laranja.

O leite chegava de caminhãozinho ou de carroça pelas ruas, e quando alguém abatia um dos seus animais, a troca acontecia entre os vizinhos.

Adoeceu? Vamos lá na benzedeira. Rezos e ervas, 3 dias depois todo mundo bem. 

Quando não era minha nona dentro do rio rezando com seu terço. 

Tudo se fazia em casa, aos domingo os almoços eram repletos de gente: a família toda se reunia, minha nona e minhas 8 tias na cozinha, preparando polenta, massa fresca, galinha na panela, maionese, muita salada de repolho e sempre tinha pepino em conserva. 

 

Infância rica, oh sorte a minha! 

Tive a natureza como mãe também, me nutrindo, observando, avisando quando algo estava indo para o caminho menos seguro. Intuição. 

Depois de alguns anos, conheci o shopping, meus avós já não tinham mais seus animais, estavam mais cansados e idosos. O mercadinho estava mais perto, mais comida sem precisar plantar. 

Cidade grande, faculdade. Sair da cidadezinha e conhecer o mundo. 

Queria ajudar as pessoas. De algum lugar, tirei que seria no direito. 

Ser juíza. 

Quem sabe Ministra da Justiça e mudar um monte de leis, que eles não percebiam que estavam erradas. 

Não foi no Direito que encontrei o que buscava, mas com toda certeza, ele foi fundamental para estar onde hoje estou. Para enxergar com clareza. 

Insatisfeita no trabalho, cheia de questionamentos, buscando um sentido pra tudo isso, 27 anos. 

E agora, o que eu vou fazer?

Uma viagem, alguns insights, um documentário: Cowspiracy. 

Mergulho em um processo lindo, de auto-conhecimento, através do estudo xâmanico, encontro lideranças indígenas, entro em contato com outro tipo de consciência e de respeito a natureza. 

Nessa fase, o objetivo era 30 dias de uma dieta vegana. Tirar tudo da despensa, começar a ler rótulos no mercado (levava muito tempo, mesmo!), ir para a cozinha. 

A cozinha que estava lá atrás no meu passado, mas que desde que mudei pra cidade grande, tinha ficado esquecida. Meio que um bicho de sete cabeças. 

No máximo eu fazia um sanduíche e olhe lá. 

Preferia cortar os vegetais e lavar a louça, pra outra pessoa cozinhar. 

Medo bobo né? Sabia de nada. 

Todo dia uma aventura, uma descoberta. Queijos veganos no mercado, lasanha, tinha bastante coisa. Mas nada era assim, gostoso. 

Eu queria sentir gosto! Sabor. Prazer. Sempre gostei muito de comer. Comer bem. 

Cesta de orgânicos chegando, vegetais gostosos, Chão na Vila Madalena, Feira do Ibira, do Água Branca. 

Uma loucura descobrir cenoura roxa, branca. Beterraba amarela, uma couve crespa diferentona, temperos, grãos. 

Cheiros e Cores. 

Queria os vegetais, os orgânicos. Queria comer bem. 

Queria vencer esses 30 dias ai e entender o que meu amigos que já eram veganos, comiam e como viviam. 

Pintrest, uma ferramenta maravilhosa para quem quer cozinhar. 

Tem de tudo lá, e você já treina seu inglês. 

Receitas, receitas, receitas, comida o dia todo. 

Minha cozinha ficando pequena, cada vez mais cheia de potinhos. 

Bruno, mestrão em minha caminhada, virou e disse: porque você não pensa em ganhar dinheiro com isso? Trabalhar com comida? Você passa o dia todo na cozinha, feliz. 

Plimmm: algo que existia lá dentro, que estava esquecidinho e apagado, ascendeu com muita força. Eu já não queria mais ir ao escritório, não queria advogar, meu e-commerce tava lá, parado. Porque não? Sim! Com certeza. Bora lá. 

Daí nasceu o projeto Vegan Easy Organic Fresh Food. 

Escola da vida, escola de empreender, de aprender sobre mercado, de entender um pouco mais de publicidade, mídias, alcance e tudo mais. 

Idéia inovadora, todo dia me desafiava a criar receitas fáceis, para quem como eu, não tinha experiência na cozinha, mas queria sabor, beleza, criatividade, praticidade. 

Foi minha escola de gastronomia, foi como me tornei cozinheira por ofício, me profissionalizando. 

Mas era um negócio. E minha alma não buscava um negócio. 

Patrocínio, metas, mercado, "concorrentes", obrigar interação, enviar email todo dia. 

Tava um pouco cansada dessa pressão ser "empresária", empreender, ter uma startup. 

Ainda não era aí que minha alma iria repousar. 

Uma casa, eventos, pessoas, rede. 

Rede. 

Começo a tecer minha rede. Resgatar. Reconectar. Reaproximar. 

Pessoas, projetos, amigos, amigos dos amigos. 

Apresentar iniciativas, receitas, gatilhos, pessoas. 

Tudo isso através de uma nova forma de como nos alimentamos. 

Uma nova antiga maneira de pensar em comida, em comer. 

Que desperta nossa criatividade, nossa forma de interação e nosso respeito com a natureza. 

Com nossos semelhantes, nossos ancestrais. 

Que reconecta, que conecta, que troca. 

A cozinha, o centro da casa, das relações. 

Das nossas memórias afetivas. Amor. 

conectar a transformação e a mudança através do que a gente come. 

Criar a mudança. 


Cozinha Reconectiva.  


Comida. Afeto. Criatividade. Ser. Natureza. 

A comida como ferramenta de sustentabilidade.

A comida como ferramenta de transformação social. 



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